Papo de Ilustrador - Anielizabeth

Visitem meu novo espaço!! www.anielizabeth.blogspot.com

22/5/10

Livro double face “Que dia é hoje? / Um, dois, feijão com arroz” ficou pronto!

Livro novo, feito em parceria com a Sandra Pina, editado pela Zit (junto ao Atelier Vila das Artes da Anna Claudia Ramos e da Verônica Lessa).
O livro está um deslumbramento ou eu é que sou coruja demais?

criado por anniebcruz    23:00:10 — Arquivado em: Sem categoria

19/5/10

Felicidade Clandestina é ter livro novo nas mãos…

Um dos meus textos preferidos de Clarice é Felicidade Clandestina, porque expressa de maneira perfeita minha relação com a literatura. Eu me identifico inclusive quando ela conta que ia andando lentamente pelas ruas de Recife, lugar onde passei parte da minha infância. Ah… E a biblioteca maravilhosa da minha prima… Quanta expectativa!! Não que ela me torturasse com seus livros maravilhosos, mas é que eles eram meu constante objeto de desejo. E cada vez que recebo um livro novo, ilustrado por mim, relembro desta crônica, que agora compartilho com vocês, destacando este trecho que narra, com perfeição, minha reação diante dos meus livros, quando eu os recebo:

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes.

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade.

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.
criado por anniebcruz    20:13:07 — Arquivado em: Sem categoria

13/5/10

Deu Tatu no meu Quintal

Acaba de chegar aqui em casa minha cota de tatus!! Hihi… Para quem não sabe, os autores de um livro ganham alguns exemplares da obra, quando ela é lançada! Este é um momento mágico, pois nada explica a emoção de receber nos braços uma cria. Já levei meu livro até para passear hoje de tardezinha. Explico: quando o livro chegou, estava de saída. E o amor é tanto que não consegui deixá-lo sozinho em casa. Levei comigo, debaixo do braço, só para senti-lo pertinho de mim!!

Prometo que logo mais, conto um pouco do processo de criação deste livro e falo também de alguns aspectos interessantes e destacáveis no trabalho com esta obra!! Mas, agora, deixa eu ir ficar com ele um pouquinho!!!

criado por anniebcruz    22:34:54 — Arquivado em: Sem categoria

13/3/10

Algumas considerações sobre a ilustração na literatuta infantil

Acordei hoje pensando nas questões que cercam a ilustração na LIJ e me deu vontade de dividir com vocês um pouco das minhas reflexões e estudos sobre o assunto.

 

O texto abaixo faz parte da minha monografia. Para quem não sabe, sou Especialista em LIJ, pela UFRJ e concentrei meus estudos na ilustração, como não poderia deixar de ser.

“Nunca houve antes uma época como a nossa, em que a imagem visual fosse tão barata, em qualquer sentido que se tome a palavra. Estamos cercados, investidos, por cartazes e anúncios, por história em quadrinhos e ilustrações de revistas. Vemos aspectos da realidade representados nas telas de televisão e de cinema, em selos postais e embalagens de comida.”

(Gombrich)

           

 

Engana-se quem pensa que o que se lê acima foi dito há pouco tempo. Esta fala de Gombrich é do ano de 1959. A “banalização” da imagem da qual tanto se fala quando o assunto é ilustração é mais antiga do que se pensa.

 

Cada vez mais a ilustração encontra espaço na literatura infantil e isto, além de ser muito mais do que uma jogada do mercado editorial é um assunto que promove debates e discussões quando o assunto é o livro infantil. Ilustração é Literatura Infantil? É um elemento importante ou será apenas um adereço? Como se dá o diálogo escrita / imagem? O que é “ilustrar” um texto? Pode-se dizer quase que grosseiramente, que é diferente de uma pintura porque serve a um propósito, a uma solicitação, ou para comunicar uma idéia ou conceito através de uma linguagem não-verbal. A diferença da ilustração de um livro para uma tela pintada é que para a última, não há um propósito específico, é algo interpretativo. A comunicação é mais receptiva do que transmissiva. Na ilustração, ao contrário, existe uma mensagem, que precisa ser comunicada e recebida conforme o ilustrador a concebeu. Pode haver metáforas, comparações, sínteses, mensagens subliminares, códigos de comportamento ou regionalismos, mas o artista neste caso quer que o espectador entenda o que ele quis dizer. Será que ilustrar é traduzir o que o texto já diz? Será que é representar uma chave pronta e óbvia do que já foi apresentado pelo texto? A ilustração de um livro infantil encerra percepções, detalhes artísticos que precisam ser lidos. E esta leitura é algo bastante específico, que ultrapassa as barreiras do verbal e entra no campo da subjetividade tanto quanto o texto escrito.

 

A ideia de que as imagens estão substituindo as palavras para as atuais gerações, de que hoje é muito mais fácil ver o mundo de imagens do que se aventurar a ler as palavras, que o mundo está contaminado por um sem fim de imagens, tem sido muito disseminada. Mas pôde-se perceber, no início deste capítulo, que esta é uma idéia um tanto antiga. Há um hábito de quase culpar a imagem da relação estreita que ela estabelece com o leitor e do desapego do leitor à leitura da palavra escrita. Afinal, dizem, é muito mais fácil olhar para imagens rápidas e facilmente decodificáveis, do que se deter em uma leitura que irá tomar, no mínimo tempo.  Tudo isso pode ser em parte, verdade, se estivermos nos referindo à massificação da mídia ou àquelas imagens, que são, em sua essência, planetárias, como as sinalizações em locais públicos, por exemplo. Mas não pode ser considerada verdade se o assunto for Literatura. Existem as imagens feitas para vender um produto e existem as imagens literárias. Aquelas que, dada à complexidade de sua criação, seus simbolismos e significados, levam à reflexão sobre a leitura, abrem portas para a imaginação, para a humanização das pessoas, conforme a ilustradora Regina Yolanda.

 

A ilustração do livro infantil não é aquilo que serve apenas para o pequeno leitor decifrar o texto. O livro é uma obra de arte que, mais do que educar pedagogicamente falando, tem o poder de desenvolver o potencial de sensibilidade presente no ser humano. O livro infantil é um produto bastante peculiar, pois conjuga interpretação de texto, projeto gráfico, inúmeras técnicas de ilustração, além dos mais diversos recursos das artes gráficas disponíveis.

Segundo Ricardo Azevedo,

“O texto escrito e as imagens constituem códigos diferentes dotados de recursos peculiares e por vezes incompatíveis… Além disso, textos literários tendem a ser plurissignificativos e possibilitar diferentes leituras o que, em princípio, desqualifica premissas como “mensagem” e “chave única de leitura”, ou seja, não combinam com a idéia de univocidade. Tais noções podem ser apropriadas para obras informativas e didáticas, mas não funcionam diante de textos que privilegiam a ficção e a linguagem poética”.

 

 

O livro infantil é uma invenção humana privilegiada, na medida em que lida com diferentes linguagens artísticas. A ilustração, assim como a literatura, deleita, comove, educa, uma vez que estimula a imaginação cada vez que se permite dialogar e criar vãos e nuances no livro, não se contentando em ser uma cópia desenhada do que está escrito, cada vez que vai além do que está escrito no texto, cada vez que se propõe a tocar a sensibilidade e contribuir para a intuição criadora do leitor, capaz de subjetividades desde a mais tenra infância. Mas para que isso seja verdade, é preciso ter sempre em foco a importância de se investir no aprimoramento artístico da ilustração, em detrimento da ilustração mercenária.

 

Um livro bem realizado, que conjugue texto e projeto gráfico bem planejado, aguça os sentidos do leitor.

Mas afinal, que relação é esta de encantamento com a imagem? Sabe-se que o ato de criação, em qualquer campo da arte, não se dá de forma leviana e impensada. Conscientemente ou não, surge de um intenso processo de pesquisa. Além das ‘imagens’ gravadas no arquivo mental de quem cria, há aquelas que surgem de um longo e detalhado processo de construção consciente: de época, lugar, texturas, intenções etc.

 

O livro infantil necessita de pesquisa, conhecimento técnico, projeto e metodologia, tanto na criação do texto, como na criação da ilustração.

 

E assim como qualquer produto comercial, necessita de marketing. Mas ainda que hoje em dia caiba ao ilustrador cuidar da qualidade estética, funcional e lúdica deste produto, de forma que estes fatores favoreçam seu marketing, seu trabalho ainda está muito mais próximo da criação literária do que do design. Afinal, não se pode perder de vista que o livro é uma obra de arte.

Não seria, então, o livro infantil, uma maneira de documentar a memória iconográfica de uma geração, tanto quanto imortaliza as tendências literárias? Não seria a literatura infantil uma poderosa aliada no combate à banalização das imagens e das comunicações tão observadas e comentadas? É necessário que o leitor treinado para ler códigos verbais seja preparado também para ver e decodificar a pluralidade de linguagens que no livro infantil se encontram e se articulam em uma espécie de tessitura.

Percebe-se, em muitas conversas e pensamentos sobre o assunto, o hábito de se justificar a presença ou existência da imagemna LIJ, fato que não ocorre com relação à escrita, como se a primeira não fosse uma expressão tão natural do ser humano como a segunda. No entanto, desde os primórdios da escrita que utilizamos hoje, texto e imagem coexistem. No caso do livro infantil, o ilustrador contrapõe a palavra escrita a um outro universo, que é o desenho, que também narra, e que é posto na frente das palavras para criar uma terceira coisa: o livro ilustrado. Portanto, o texto do livro ilustrado não é nem a palavra, nem a imagem: são as duas coisas juntas.

Anielizabeth

 

 

criado por anniebcruz    12:49:34 — Arquivado em: Sem categoria

12/3/10

Lançamentos da Editora Zit

Confiram!!!!

Recomendo todos! Estão lindos demais estes livros, que recebem coordenação editorial da Anna Claudia Ramos e da Verônica Lessa.

criado por anniebcruz    16:59:52 — Arquivado em: Sem categoria

5/3/10

Produzindo mais umas coisinhas por aqui…

Ando em momento de profundo silêncio e reflexão. Na verdade, procurando novos caminhos para trilhar em busca de uma trabalho com qualidade cada vez maior. Mas, não ando parada não. Pelo contrário: ando suando a camisa, do jeito que eu gosto!

 

 

 

criado por anniebcruz    21:56:21 — Arquivado em: Sem categoria

6/1/10

Produzindo

criado por anniebcruz    19:52:10 — Arquivado em: Sem categoria

Novas imagens! De onde será que elas são??

 

 

 

criado por anniebcruz    19:47:00 — Arquivado em: Sem categoria

29/12/09

Feliz Ano Novo!

criado por anniebcruz    10:39:54 — Arquivado em: Sem categoria

19/12/09

Fiquei sabendo…

Fiquei sabendo que a Prefeitura do Rio de Janeiro comprou cerca de 800 exemplares do livro A menina que não queria dormir, escrito pela Pollyana Gama, ilustrado por mim, editado pela Cortez e lançado recentemente.

Este é o meu quarto título comprado por esta prefeitura! Belo presente de Natal.

Fiquei muito feliz em saber!

Inclusive, soube também que ele foi lido em uma importante reunião desta Secretaria de Educação e bastante aplaudido! Bom, né????

criado por anniebcruz    10:46:12 — Arquivado em: Sem categoria
Posts mais antigos »
Report abuse Close
Am I a spambot? yes definately
http://papodeilustrador.blog.terra.com.br
 
 
 
Thank you Close

Sua denúncia foi enviada.

Em breve estaremos processando seu chamado para tomar as providências necessárias. Esperamos que continue aproveitando o servio e siga participando do Terra Blog.